Pensar Futebol

27 abril, 2006

A didactica do jogo de Futebol

No futebol o primeiro problema que se coloca ao jovem é de natureza táctica, ou seja, o que fazer? Só depois é que surge o problema de como fazer, isto é, a questão técnica através da selecção da resposta motora mais adequada à sua resolução.

Desta forma, o meio de ensino/aprendizagem mais utilizado é o jogo (dirigido, condicionado, livre). O ensino das técnicas individuais é apresentado sob formas jogadas, embora se admitam formas analíticas, mas apenas para a aquisição das noções básicas da sua execução.

Se centralizarmos o processo ensino/aprendizagem exclusivamente, em demasia, ou mesmo em parte, na técnica individual e muitas vezes baseado em formas analíticas, e muito pouco ou nenhum na aprendizagem do jogo, não provocamos um apuro qualitativo da equipa/turma, isto é, a aprendizagem das acções de uma forma analítica e descontextualizada da realidade do jogo, não possibilita, por si só, a sua aplicação eficaz no contexto das situações de jogo. Por isso as estratégias mais adequadas para ensinar o jogo passam por interessar o praticante, recorrendo a formas jogadas divertidas e motivantes, implicando-o em situações problema que contenham os ingredientes fundamentais do jogo, isto é, presença da bola, oposição, cooperação, escolha e finalização.

Neste sentido os exercícios de treino não se dirigem a um único objectivo, antes pelo contrário, consideram em cada momento que melhorias podem provocar nos domínios técnico, táctico, físico, cognitivo e psicológico numa relação coerente entre estas variáveis (analíticos somente o necessário, globais e integrantes tanto quanto possível).

in http://www.slbenfica.pt

Mourinho: porque tantas vitorias.

«Testes físicos?! É uma questão de crença. Eu não acredito... Treinos de conjunto?! Não faço. Não utilizo programas individuais de musculação. O ginásio e as máquinas de musculação são para o departamento médico. O dito treino integrado e a minha metodologia de treino não têm a mínima relação... a não ser a presença da bola! A maioria dos treinadores não pode dizer que precisa do tempo que diz precisar para ter sucesso numa equipa. Quer dizer, se calhar até precisa... porque se perde tempo com questões que não a organização de jogo. […] Sei que é muito mais fácil treinar segundo os conceitos tradicionais do que desta forma. Porque treinar desta forma obriga a pensar como sistematizar. Por exemplo, este livro vai ser um livro fantástico, mas não vão ser muitos os treinadores de formação tradicional que, mesmo lendo-o cinquenta vezes, vão conseguir extrair dele coisas produtivas para o seu trabalho, porque não conseguem sistematizar a partir daí.»

José Mourinho, in "Mourinho: porquê tantas vtórias", 2006

O Liverpool de Benitez

Tacticamente, o Liverpool de Benitez é um equipa estruturalmente cautelosa cuja primeira preocupação reside, claramente, na organização defensiva. Pragmático, Benitez nunca arrisca perder o equilíbrio táctico da equipa. Tal, no entanto, condiciona muitas vezes a evolução da estratégia para jogos onde é imperioso ganhar. Para o técnico espanhol, porém, a obrigação reside em manter sempre o equilíbrio entre as três linhas.
Em termos de sistema, varia entre o 4x4x2, nos jogos em casa, e o 4x2x3x1 que utilizado sobretudo nos jogos fora, contra adversários mais difíceis, se transforma antes numa espécie de 4x5x1. Um esquema rochoso que visa sobretudo ganhar a batalha do meio campo. Para isso, joga com uma dupla de pivots defensivos, formada habitualmente por Xavi Alonso, responsável depois pelo primeiro passe na transição defesa-ataque, e Sissoko, um monstro que tem como principal missão roubar bolas e pressionar os adversário e roubar bolas.
É devido a esta obsessão táctica, que um dos principais dilemas do actual modelo de jogo da equipa, reside em encontrar o local certo para Gerrard. Face ás suas qualidades de passe e remate, para além de ser um líder natural, o melhor lugar seria no centro com liberdade para subir. No desenho do 4x5x1, Benitez tende a encostá-lo ao flanco direito e, com isso, a equipa perde grande parte do seu carácter. Quando pega na bola, porém, seja em que zona do campo for, a categoria e carácter de Gerrard faz estremecer qualquer jogo.
Na defesa, impõe-se uma gigante dupla de centrais, verdadeiro muro que se ergue em frente ao guarda-redes Reina. Veloz, destemido no corte e com perfeito sentido posicional, Carragher é um titular indiscutível da selecção inglesa. Hyypia, embora sem grande jogo de cintura, é imperial no jogo aéreo e nunca receia um lance de choque. Nestes dois homens personificam como o Liverpool é também muito forte nos lances de bola parada, a defender e a atacar, revelando uma concentração granítica em todas essa jogadas
Uma das zonas mais fortes do reside por todo o flanco esquerdo, onde, desde e defesa, incute sempre grande profundidade ofensiva ao jogo. Ora com o veloz e aguerrido Riise que, como médio ala ou lateral, arranca de trás com grande decisão, para rematar ou meter a bola na área, e Kewell, o mágico australiano canhoto, um vagabundo da zona de construção, claramente o jogador mais criativo da equipa.

in http://www.planetadofutebol.com

O Treino de Futebol

Como podemos utilizar as condicionantes (espaço, nº de jogadores, tempo, regras) na estruturação do treino? Por exemplo quero sistematizar subpríncipios de jogo dos meus três médios (estrutura utilizada no meu Modelo de Jogo Adoptado é o 1x4x3x3):

1º - Realizo o exercício no espaço onde normalmente os jogadores actuam, para criar hábito sensorial ao campo. Não vou utilizar o exercício dentro da grande área, porque os médios actuam preferencialmente no meio campo;
2º - Não utilizo toda a largura do terreno de jogo, reduzo a largura e em profundidade (por ex: 30x30m) para que a densidade de comportamentos durante a sua execução seja elevada, mais até do que o próprio jogo;
3º - Coloco dois apoios em profundidade, porque é neste sentido que os médios jogam, mais do que em largura;
4º - Limito os apoios a dois toques e os interiores jogam livre;
5º - Os jogadores têm como objectivo passar com a bola controlada para lá da linha de baliza adversária (1 ponto), podendo utilizar o apoio ofensivo. Para manter a posse de bola podem utilizar o apoio defensivo;
6º - Imagine-se que é quarta-feira, no meu microciclo padrão dia destinado às elevadas tensões (regime de força), então realizo este exercício por períodos máximos de trabalho de 1’30’’, intervalados com períodos máximos de recuperação de 1’. O reduzido espaço de jogo provoca travagens, acelerações, mudanças de direcção e sentido, que são as manifestações de força do “meu” jogo.

OBJECTIVO - Neste exercício o que se pretende é que os jogadores utilizem uma disposição geométrica igual à estrutura do meu Modelo de Jogo (um médio defensivo e dois ofensivos). Em processo ofensivo quero posições abertas, linhas de passe, mobilidade e equilíbrio defensivo. Em transição defensiva quero pressão ao portador e fechar posições em estrutura. Em processo defensivo quero coberturas, contenção e basculações. Em transição ofensiva quero decisão rápida: profundidade ou posse. É desta forma que utilizo as condicionantes na organização dos meus exercícios de treino.

Luís Norton de Matos, in jornal Record, 25-IV-06

11 março, 2006

Fundamentos de um novo modelo

A “Periodização Táctica” assume a componente “táctica” como coordenadora de todo o processo de treino, tendo em vista a operacionalização do modelo de jogo e respectivos princípios adoptados pelo treinador, surgindo as restantes componentes por arrastamento e em paralelo com a componente “táctica”. (…) Sendo o Futebol um jogo essencialmente cognitivo, táctico, porque é que existem periodizações onde o núcleo central é a componente física? Aparecendo no Futebol todas as componentes interligadas e em simultâneo, porque é que no treino, as mesmas componentes são muitas vezes treinadas de forma isolada? Porque é que os treinadores desejam que as suas equipas joguem de uma determinada forma, mas depois no treino os seus jogadores passam pouco tempo a jogar “ jogo” que o treinador deseja que eles joguem.

Nuno Resende, in Monografia, Porto 2002

Conteúdo de treino

O meio de operacionalizar o modelo de jogo é utilizar exercícios específicos, ou seja, estes deverão ser realizados com intensidade em concentração, sempre subordinados ao modelo de jogo adoptado, pois só assim os jogadores irão adquirir uma forte relação entre a mente e o hábito. A operacionalização do treino exige a utilização de exercícios específicos desde o primeiro dia da época.

Carlos Carvalhal, 2002

Modelo de jogo

Os modelos táctico-técnicos devem descrever metodicamente e sistematicamente um sistema de relações que se estabelecem entre os diferentes elementos de uma determinada situação de jogo, determinando de uma forma concisa as tarefas e os comportamentos táctico-técnicos que o treinador exige aos seus jogadores, de acordo com os seus níveis de aptidão e capacidade.


Carlos Queiroz, 1986