Pensar Futebol

29 Janeiro, 2006

Rotatividade

A rotatividade pode ser ponto de equilíbrio ou esconder outras intenções dos técnicos. (…) Houve tempos em que pequenos plantéis serviam os interesses dos clubes mais poderosos que, recorrendo quase sempre ao mesmo onze, ainda assim eram capazes de ter múltiplos êxitos no fim da época. (…) À medida que se diversificaram as competições, aumentando o número de jogos e os interesses económicos em jogo, além de se melhorar o nível de preparação física, o panorama registou alterações e a década de 90 viu emergir a rotatividade, também conhecida como turnover. Marcello Lippi, Fábio Capello, Alex Ferguson, Louis Van Gaal, Alberto Zaccheroni, Sven-Goran Ericksson, Frank Rijkaard, Hector Cúper, Rafael Benítez, Arsène Wenger, Carlo Ancelotti e José Mourinho (…) recorrem a essa política para que as respectivas equipas tenham capacidade de responder às exigências da longa temporada.
(…) Aldo Zerbini, psicólogo de desporto em Itália, dá pistas para a compreensão do assunto. “O turnover depende de muitos factores: do momento de forma, das lesões, dos cartões acumulados, do modelo de jogo, das fases em que se encontra a competição, de jogos com maior peso psicológico. No fundo, a ideia é chegar aos desafios decisivos com os “titulares”, com a equipa ideal nas melhores condições psicofísicas.” E acrescenta: “Turnover e substituições fazem parte de um processo contínuo, de uma estratégia, integrados no plano global traçado para a época. Devem ser decididos com muita ponderação para que se respeite não apenas a integridade do indivíduo, mas também a coesão do grupo.”
É fundamental o conhecimento que cada treinador tem acerca do temperamento e das características dos jogadores, sob risco de as mudanças acabarem por se transformar em bombas de rebentamento retardado ou imediato no interior do grupo. (…) Mourinho (2003) afirma que “a rotatividade não é sinónimo de poupança, de menos tensão ou menor interesse por uma competição que parece bem encaminhada. O ponto mais importante da rotatividade é a motivação e a união do grupo.”
Anderson, jogador do Benfica, refere que “existe algo que me agrada muito em Koeman e que consiste no facto de dar rotatividade à equipa. Todos têm as suas oportunidades. Temos de estar sempre bem preparados, pois quando menos se espera ele coloca-nos a jogar. Isso fortalece o espírito de grupo.”
Todos são importantes, ninguém é indispensável, mas cada treinador encontra sempre elementos fundamentais dos quais não costuma prescindir, a não ser por lesões ou castigos. “Não é fácil gerir tantos campeões”, reconheceu o técnico da Juventus em “La Gazetta dello Sport”. “Temos um plantel vastos e todos querem jogar, pelo que é preciso ter em forma aqueles que não jogam, levando-os a compreender que o seu momento chegará. É preciso saber falar, estimular o seu orgulho e a sua vontade de agir, importando ainda compreender cada jogo, analisar bem cada adversário e conhecer muito bem os jogadores que temos à disposição.” Tudo resumido numa frase: “Não há privilégios para ninguém.”
José Mourinho em Barcelona, explica como agira ao lado do holandês Louis van Gaal na preparação da temporada com metas ambiciosas. Os princípios são estabelecidos sem qualquer dúvida a partir de Abril de 1999. Decisões-chave: “1- Plantel de 22 jogadores, dois por posição, com qualidades similares; 2 – Pré-temporada realizada com a especificação de duas equipas diferentes, cada equipa com um treinador adjunto, cada equipa a realizar 45 minutos de cada jogo particular; 3 – Os treinadores das respectivas equipas trabalhavam especificamente com os seus jogadores de forma diária, seguindo o modelo de jogo uniformizado para todas as equipas do clube, sob o controlo do director técnico Louis van Gaal; 4 – Na última semana da pré-temporada, análise detalhada dos comportamentos e capacidades com a decisão respeitante ao melhor jogador para cada posição. Definição clara da equipa-base titular e da alternativa para a rotação.” (…) Resume ainda os passos imediatos: “Iniciamos a época de forma demolidora e utilizando predominantemente as primeiras opções. Fomos líderes da liga espanhola, também os únicos a vencer de forma consecutiva os grupos da liga dos campeões que nos conduziram aos quartos-de-final sem derrotas e com performances incríveis em Wembley, nas Antas e em Florença. Chegámos a Março e aos momentos-chave das duas competições. Chegava também o momento de aplicação das rotações.” (…) Por último refere “se alguém pensa em rotações fá-lo com legitimidade. Mas que tenha presente os riscos inerentes!”

In “Revista Dez”, nº 91, in 28/01/06